sábado, 1 de fevereiro de 2014

O arrebatamento do vazio

Estava ali. Não sabia bem de que maneira tinha chegado, ou há quanto tempo mirava o chão. Mirava também o céu, alternava-os. Cada qual, à sua vez, preenchia o insuportável vazio que carregava em si. E como pesa o vazio. Um nada, absurdo, tomando todos os espaços... “Não sobra lugar pra mais nada”, concluía. Nada que viva. Nada que viceje. O vazio vem e toma tudo. Sua vida. Sua história. Seu ar. A asma só existe para que se curve frente à pujança do vazio. Para que não se esqueça do quão frágil pode ser diante da necessidade tão básica e primal que é respirar.  Para te lembrar de que nem isso você controla. De verdade, você não controla nada. Flutua imerso às diversas variáveis que delimitam os contornos da sua vida, e reage a elas da forma que pode, da forma que dá. Nem sempre escolhe a melhor maneira, ou a mais inteligente. Enquanto criatura humana, a falha reincidente governa grande parte de suas escolhas. Não por falta de esforço ou inteligência. Pelo poder do hábito, segue repetindo fórmulas que já se provaram desgastadas e inócuas. E segue sofrendo. O sofrimento é, aliás, companhia de longa data. De novo, olha para o céu e de novo para o chão, e busca encontrar quando, na vida, houvera um momento em que o sofrimento não lhe acompanhasse... Não se lembrava. Certeza que houve algum, claro! Precisava acreditar nisso.  Ah! Lembrou-se! Realmente, naqueles momentos raros, foi bom estar vivo.  Pena terem sido tão fugazes... Ao menos é como vê esses momentos em sua cabeça. Situações que demoravam a chegar e passavam muito rápido. Situações únicas apenas resgatáveis através de vagas lembranças. O mais era a dor. O custo. O sofrimento. Não uma dor insuportável, mas apenas suportar. Era isso, não sorvia a vida, mormente a suportava. Em muitos dias nem doía... Mas sempre custava, sempre. “São muitas reflexões para um banco de praça”, pensava. E eram mesmo. Tão pesadas que o impediam de se levantar. Deixou-se ali por muito tempo, contemplativo. Precisava superar a dor e recuperar ao menos um pouco de leveza, para se levantar.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A ferro e fogo

É fácil te querer apenas por que existe
Querência que arde numa indelével chama
Que não machuca, mas a perturbar insiste
Vontade que abrasa a alma de quem te ama

De ti que roubo esse calor ameno
Por ti o riso solto, sem nenhum motivo
Enquanto sob seu semblante sereno
Disfarças seu desejo com um olhar furtivo

Chama contra chama, sejamos consumidos...

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Sonhando-nos...


Sonho com dias de verão
                         manhãs doces de sol à pino

Cabelos voando ao vento
                         seguindo corpos em desatino

Faces estampadas de sorrisos
                        risos ruidosos e cristalinos

Loucos perseguindo sonhos
                       seguimos, sem rumo ou destino




quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Motivo, razão ou circunstância...



Tantas regras e explicações
- Justifique-se! - pedem a todo o momento
Exigem verbalmente (ou mesmo em silêncio...)
Olhares inquisidores meu passos acompanham
Cintilam tão ferinos que a pele me arranham

Minha existência se transforma em tormento
Torno-me incômoda de tanto que lamento
Mesmo sem fé, uma prece atiro ao vento:
'Gostaria de existir sem tanto sofrimento'

Como escasseiam opções, sem muita pressa me levanto
Bato a poeira do joelho e limpo do meu rosto o pranto
Devo encontrar minha coragem perdida aí, em algum canto
O sol irrompe pela janela e mantém ainda seu encanto...

domingo, 4 de agosto de 2013

Dolorosa espera

Se apenas me resta aguardar
Suas lembranças esparsas guardo
Das descrenças me resguardo
E lhe aguardo

Não te importas se por dentro ardo?
Seu desprezo é em meu peito um dardo
De espessos e afiados espinhos bordado
Quisera eu nunca tivesse lhe achado...