sábado, 6 de dezembro de 2014

Recomposição

Um dia cinza, a mente clara
a ausência já não me asfixia
a solidão agora me ampara
e todo meu espírito se alivia

Planando com indiferença
a alma mais leve por estar vazia
não precisa mais pedir licença
apenas é, sem maiores avarias

A existência não-dolorida
(coisa que me era já esquecida)
me retoma de forma desmedida

E é bom não pesar tanto
a ponto de só andar cabisbaixo por aí

É bom olhar à frente, olhar avante
olhar pro futuro sentindo-se confiante

Acreditar que o bem me espera logo ali adiante...


domingo, 30 de novembro de 2014

Devagar divago

Naquele sonho a fantasia
um devaneio de alegria
se transmuta em poesia

Minha alma se asserena
a aflição se apequena
nasce, assim, mais um poema

Apenas olho para cima
aquela angústia declina
e surge mais uma rima

Uma preguiça desairosa
Essa manhã calma e ociosa
Cansada de tanta prosa...


domingo, 23 de novembro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

E é assim que é

A sua voz que não me vem
é doce lembrança aos meus ouvidos
Seu toque, ocasional e raro
Faz falta às curvas do meu corpo
Seus beijos inusitados 
Seguem desejados por meus lábios

Uma pena todo o universo, unido,  a conspirar
"Ontem não rolou, hoje não posso, amanhã não dá"
Um casal adiado para um futuro que nunca vem
Um sonho que se perde no horizonte e além...

Era uma vez...

Um doce sonho de futuro, precocemente morto 
"Morreu de senões" dirá o doutor, 
"em altas doses é o que mais mata o amor"
Apenas mais um caso na longa e documentada história
De amores mal começados e prematuramente acabados

O meu coração partido é apenas mais um
Ao menos, quanto a isso, não há privilégio algum
A desgraça é democrática e atinge à todos igualmente
E, igualmente, seguimos todos sempre em frente.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Bodas

Encontro amigos dos meus pais que eu não via há anos e vejo em alguns deles as marcas claras do tempo. Penso: se os visse todos os dias, o impacto não seria o mesmo. Como não me assustam tanto os sinais do tempo em mim, nos amigos que vejo sempre. Sinto. A procura do amor é por essa eternidade: estar sempre juntos e não ver o tempo passar. O outro não envelhece, só ganha mais significado. Torna-se cada vez mais parte de nós mesmos. Tanto, que já não sabemos mais separar. A sua ou a minha velhice? A nossa. Nossa construção de amor, tijolo a tijolo. E que casa bonita. Eu sonho com ela, sim.





Lindo texto da Cris Guerra - www.crisguerra.com.br/cris-escreve/amor-e-ponto/2009/09/07/bodas/    

sábado, 27 de setembro de 2014

Suspeitas


"E você nem suspeitava?" eu era questionada
"Não!", respondi convicta, pela pergunta assombrada
Como assim? De onde surgiria receio ou temor
Se envolta estava na mais sublime condição de amor?

Não pode ser que houvesse outro fundamento
Não é possível que o sonho não tivesse alento
Não acredito que pudesse ser esse o intento
Tornar minha vida constante fonte de lamento

Enfim... Seja como for, foi-se

Páginas foram viradas e um livro foi fechado
Belo livro, de conteúdo ricamente adornado
Permanecerá como nobre espólio guardado
Na pequena gaveta dos 'amores acabados'



sábado, 6 de setembro de 2014

Pretérito

Éramos dois
Éramos sóis
Éramos laços
Éramos nós
Éramos juntos
Éramos sós
Éramos tudo
Éramos dois
Éramos uno

Já não mais somos, fomos

Hoje apenas sou...



domingo, 31 de agosto de 2014

Enfim


 O vazio envolve-me em sua ausência
 é essa agora a vida, triste ambivalência
 ter é não ter, querer não é poder
 da inexistente atitude a triste consequência

 só desejava a mais banal das existências
 alguma paz e boa companhia em minha residência
 mas por apenas metade disso eu poderia responder
 e assim contemplo, de meus planos, a falência

 o castelo de sonhos com frágeis fundações, desmoronou
 aquele sonho doce de partilha nem se realizou
 e agora, como antes, permaneço sozinha

 Apenas sigo em frente, a cuidar dessa vida que é só minha.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O amor está no ar...

Declarações de amor jogadas pela janela virtual
Declamadas aos quatro ventos pela rede social
O galanteio furtivo, algumas vezes até anônimo,
Já não existe e até parece demasiado incômodo

Não há mais romance como antigamente...
E eu ainda sou tão como antigamente!
Agora de nossos apreços devemos dar satisfação
Noticiar o que seria ‘particular’ pra toda uma multidão

E no ranking de enlaces todos competimos
Independentemente se felizes estamos ou mentimos
Importante é divulgar toda essa felicidade
E matar de inveja cerca de metade da cidade

Quem dirá que não vale à pena?  Talvez até valha
Cada um sabe bem o que da vida melhor lhe calha
Quem sou eu pra condenar as novas expressões de amor
Elas apenas não me descem sem algum torpor

Bom mesmo é o ‘eu te amo’ sussurrado no ouvido
Junto de um abraço apertado e deveras comovido
No silêncio de nosso quarto, sem barulho ou alarido...


domingo, 8 de junho de 2014

Planos


                                                        "Understand what I've become... It wasn't my design"


Quando pensava o futuro não era esta figura que almejava
Mirava um tempo distante e uma imagem diversa enxergava

Delineava conquistas enquadradas em planos de sonho...
Hoje me movo de arrasto em meio a um cotidiano enfadonho
Do que havia traçado não alcancei nem um rascunho medonho
E a cada horizonte o sol nasce um pouco mais tristonho

Estar tão longe da ideia original é uma contingência imprevista
Quando mais me debato, mais me encarcero nessa teia sinistra
Quero crer que haja jeito e que essa dor será, um dia, finita
E que a aurora que resplandece na janela voltará a ser bonita



 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Você


Esperei.

Não porque quisesse, mas porque fui obrigada
Na verdade eu nem sabia e eu já te esperava
Sua chegada repentina foi intensamente aguardada
Mal sabia eu que era de encontro a ti que a vida me levava

E me levava à revelia, pois já me via desenganada
Esperei sem esperar, pois se em mais nada acreditava...
Foi de súbito que teu caminho torto cruzou com minha estrada
E eu, tão acostumada a ser só, agora a seu lado caminhava

Desde então nunca importou o destino desde que fosse contigo
Seus olhos encontram os meus, você segura minha mão.

Apenas sigo.

Seguimos.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

O arrebatamento do vazio

Estava ali. Não sabia bem de que maneira tinha chegado, ou há quanto tempo mirava o chão. Mirava também o céu, alternava-os. Cada qual, à sua vez, preenchia o insuportável vazio que carregava em si. E como pesa o vazio. Um nada, absurdo, tomando todos os espaços... “Não sobra lugar pra mais nada”, concluía. Nada que viva. Nada que viceje. O vazio vem e toma tudo. Sua vida. Sua história. Seu ar. A asma só existe para que se curve frente à pujança do vazio. Para que não se esqueça do quão frágil pode ser diante da necessidade tão básica e primal que é respirar.  Para te lembrar de que nem isso você controla. De verdade, você não controla nada. Flutua imerso às diversas variáveis que delimitam os contornos da sua vida, e reage a elas da forma que pode, da forma que dá. Nem sempre escolhe a melhor maneira, ou a mais inteligente. Enquanto criatura humana, a falha reincidente governa grande parte de suas escolhas. Não por falta de esforço ou inteligência. Pelo poder do hábito, segue repetindo fórmulas que já se provaram desgastadas e inócuas. E segue sofrendo. O sofrimento é, aliás, companhia de longa data. De novo, olha para o céu e de novo para o chão, e busca encontrar quando, na vida, houvera um momento em que o sofrimento não lhe acompanhasse... Não se lembrava. Certeza que houve algum, claro! Precisava acreditar nisso.  Ah! Lembrou-se! Realmente, naqueles momentos raros, foi bom estar vivo.  Pena terem sido tão fugazes... Ao menos é como vê esses momentos em sua cabeça. Situações que demoravam a chegar e passavam muito rápido. Situações únicas apenas resgatáveis através de vagas lembranças. O mais era a dor. O custo. O sofrimento. Não uma dor insuportável, mas apenas suportar. Era isso, não sorvia a vida, mormente a suportava. Em muitos dias nem doía... Mas sempre custava, sempre. “São muitas reflexões para um banco de praça”, pensava. E eram mesmo. Tão pesadas que o impediam de se levantar. Deixou-se ali por muito tempo, contemplativo. Precisava superar a dor e recuperar ao menos um pouco de leveza, para se levantar.